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Etiqueta do adeus

Comecei a te esquecer no momento em que se lembrou de dizer adeus. Ser deixada para trás tem dessas. Parece menos pior quando existe uma troca de palavras antes do fim definitivo, quando ainda existe um nós para tentar explicar os buracos da relação. É um momento precioso tentar curar as feridas com exclamações do passado, com direito a “era assim, né?”, “éramos felizes e não sabíamos” ou “tudo mudou e agora estamos aqui, nos separando, cada um partindo para um novo amanhã”. Ele diz, eu digo, nós dizemos. É um sentimento mútuo, decisões cúmplices, que no calor do adeus parecem suportáveis, mas na solidão do colchão à noite, o teto desmorona e você percebe que o jogo se repetiu como da última vez. O não deu certo cansa, e é nesse momento que todas as culpas parecem pular dentro de sua cabeça como uma dor que causa pontadas agudas. Aí você se levanta, pega um copo d’água e começa a tentar entender o que foi toda aquela conversa que tiveram à tarde. Parecia tão fácil aceitar o fim. Parecia tão simples dizer adeus e partir. Afinal, você é madura o suficiente para sacar quando tudo está uma merda e não há mais nada que nos prenda. E não há sono. Não há café forte. Não há motivos para sonhar. A inquietude toma conta do seu quarto e a angústia domina cada cantinho do seu coração. A maldita angústia, que tenho certeza que arrancará todos os meus sorrisos pela manhã e que me arrastará por dias, como uma gripe mal curada, um dente de siso que adora te encher de dor. Começo a discutir comigo mesma, pergunto-me o que estou fazendo com meus dias. Até os fins de semana tornam-se pesos mortos. A intolerância se faz presente e a única vontade que resta é a de beber. Não para esquecer, mas sim para lembrar cada detalhe e, em seguida, rir de tudo. É óbvio que depois do show só resta aquela maquiagem destruída, batom no copo e olhares piedosos. É quando esqueço de quem desejo e começo a procurar quem poderia desejar, a partir daquele momento. Toda aquela gente próxima, alvos potenciais, mas que não estão envolvidos sentimentalmente comigo. As possibilidades se jogam em cima de mim. Meu cérebro começa a misturar nós, o cara do meu lado e aquele namoradinho do colegial. É tão confuso gostar de alguém, viver uma história, perceber que não dá mais certo e depois começar a remoer cada detalhe, buscando respostas que não existem. Você começa a comparar todos eles, homens incríveis, que não se conectam e que só existem em sua cabeça alcoolizada. Isso é falta de entrega, garota. Preciso de um beijo de verdade, agora, e que não venha com a etiqueta de mais um adeus.


Duas taças

O que me diz de todas essas mentiras? Anos e anos escutando as mesmas histórias, sem fim, perdida em meio a todo esse egoísmo profundamente enraizado em complexos adolescentes. Você brincava comigo todas as noites e eu adorava. Só queria estar ali, sempre à disposição, para satisfazer seus caprichos noturnos – muitas deles diurnos -, mas quem se importa? Tudo aquilo era uma delícia sem fim. Uma mentirinha aqui e ali nunca me afetou tanto assim. Não digo que sou daquelas que finge não sentir o que sente, até porque nunca fui capaz de tal feito. Estou à flor da pele agora, como estava ontem às 2h da madrugada. E às 2h10 te liguei, afinal, sempre fui um tanto quanto ligada em horas exatas, momento certo, o tal time das coisas. Queria te surpreender, o que não é uma novidade. É tão bom pegar alguém desprevenido – mas eu prefiro ser pega desprevenida, mas as pessoas não são tão imprevisíveis como eu gostaria que fossem. Perturbei sua noite com um telefonema, e você disse que não, que estava tudo bem e que era ótimo ouvir minha voz àquela hora da madrugada. Expressei alguma felicidade? Lógico. Que mulher não pularia com uma afirmação dessas? Ainda mais quando se está loucamente apaixonada por um boêmio. Consegui até sentir o tilintar dos gelos de sua taça. Quem dera se eu estivesse do seu lado, não do outro, no escuro, sozinha e tomando uma taça semelhante, mas sem gelo. Eu brinquei com o fio do telefone enquanto falava, quando o silêncio se instalou entre nós. Tentei emendar uma história qualquer da nossa semana conturbada, distante, mas nada surgiu para suturar o veneno da ausência de som. Minto, conseguia ouvir vozes e a sua respiração, que não parecia entediada, para o meu alívio momentâneo. Foi nesse momento que você resolveu dizer que precisava desligar e, inconsciente daquilo tudo, apenas consenti e disse que precisava dormir. Que tristeza. Era um sábado, às 2h30 da madrugada, e eu estava tomando todas no meu apartamento, sozinha, ouvindo She & Him, pensando o quanto essas músicas combinam com a minha vidinha miserável. “I Was Made For You”, “I Thought I Saw Your Face Today” e a que mais me deixa inconsolável “Me and You”. Ah! Odeio sentir essa vontade louca de sair pela noite à sua procura. Bater na porta de seu apartamento sem ser convidada e, quando abrir a porta, jogar-me em seus braços e beijar cada pedacinho de pele em seu rosto, pular para seu corpo e esquecer que amanhã é segunda-feira.


Sonhos distantes

Antes de querer realizar meus sonhos mais distantes, que é me tornar fluente em japonês e em inglês e morar uns anos no Japão, gostaria muito de ter uma relação mais saudável com a minha família, principalmente com meu pai. Não somos filha e pai há muitos anos, mas se for para determinar o início dessa relação conturbada, diria que começou na minha adolescência. Sempre tive um gênio difícil, daqueles que lutam para provar aquilo que acreditam e, por teimosia, acabam entrando em discussões sem fim. Claro que não me considero a única culpada por todos os problemas, até porque meu pai também tem seus defeitos. Uma das coisas que menos gosto nele é seu jeito autoritário de lidar com as coisas e até mesmo com os sentimentos. É estranho, mas ele costuma colocar sua autoridade acima de tudo, e a usa como arma para conseguir o que deseja. Desde aquela época percebo que me tornei alvo de suas frustrações e sua personalidade, no meu ver, tornou-se cada vez mais marrenta. O que isso quer dizer? Bem, ele costuma inventar motivos para me deixar mal quando ele mesmo não se sente bem por algum motivo. E para me atingir, ele tenta tirar tudo aquilo me faz bem ou me anima de alguma forma. Antes ele tinha mais poder sobre mim, que ele usava, por exemplo, para me proibir na cada de um antigo namorado ou para evitar que eu saísse à noite com amigos. Agora, aos meus 23 anos de idade, ele já não consegue me controlar assim, por isso ele acabou criando outras formas para que eu não faça o que eu quero.

Mas, sabe, não me importo muito com essas coisas. O que eu queria mesmo, do fundo do meu coração, é ter uma família unida, feliz e que todos pudessem contar um com o outro. Queria poder chegar em casa e abraçar meus pais, jantar com eles, contar como foi meu dia no trabalho ou no curso de japonês sem julgamentos e com toda atenção que qualquer filho gostaria de receber de sua família. Isso mesmo, queria muito que eles me ouvisse de verdade. Na maioria das vezes, falo, falo, falo, mas minha voz nunca chega em seus ouvidos, mesmo quando não estamos no meio de uma briga. Parece que não há interesse da parte deles. Porém, nesse sentido, tenho que reclamar mais da minha mãe. Ela quase sempre não se interessa muito pelas coisas que compartilho com ela e frequentemente julga minhas escolhas e conquistas. Isso é frustrante, é lógico. Mas eu a amo demais. Sem ela, nem estaria escrevendo este texto. Claro que nossa relação também é conflitante. Ela, assim como eu, tem um gênio forte, grita mais do que fala e não gosta de ouvir conselho ou opinião de ninguém. É teimosa demais. Mas nós quatro, meu irmão também entra nessa equação, somos muito teimosos. Imaginem os transtornos que enfrentamos por causa desse defeito em comum… Não é fácil.

Meu grande sonho é que minha família seja feliz em todos os sentidos e que meus pais tenham orgulho dos filhos que têm, não apenas de mim mas do meu irmão mais velho também. Com todos felizes, posso continuar a sonhar meus sonhos mais egoístas, mas que não deixam de ser os impulsos que me fazem seguir em frente. Agradeço a todos eles, sem exceção.


Ahhh, o amor!

Há amor de tudo quanto é jeito: amor que dá certo, amor que dá errado, amor que vira casamento, amor que não sai do zero a zero. Amor platônico, daqueles de trem e metrô. Amor de verdade, que se renova a cada viagem. Amor, amor, amor. Infinitas possibilidades de viver um, basta estar disposto a tal.

“We’ve got tonight, who needs tomorrow?
We’ve got tonight, baby
Why don’t you stay?”


Um grito de socorro

Sabe quando a vida está uma droga e não sabemos que rumo tomar? Sinto-me assim, totalmente perdida, e essa sensação é constante em mim. E não é de hoje. Passo o dia me perguntando o que fazer, se fiz e faço as escolhas certas. Os caminhos estão aí, prontos para serem escolhidos, mas fico nessa inércia interminável. O tempo parou. O relógio não se move mais. E, quando penso que consegui resolver uma dúvida ou um problema, outros aparecem para emperrar meus passos, que já enferrujaram de tanto esperar. Pior que isso, continuo a descontar minha insatisfação em todos ao redor: namorado, mãe e os poucos amigos que restam. Parece que nada me faz bem, que sempre falta algo e que essas pessoas, agredidas pelo meu humor oscilante, não me satisfazem como eu gostaria. Mas, a pergunta que fica é a seguinte: o que realmente gostaria de receber delas? Não tenho essa resposta, como também fico devendo para as outras questões que assombram meu dia a dia.

Faço planos, para logo em seguida descartá-los, como se essa “eterna tentativa de novidade” fosse o refúgio do nada que me acomete. Afinal, quem não fica feliz quando planeja coisas para o futuro? Viagens, cursos, compras a longo prazo. Infelizmente, essa sensação de novidade acaba quando percebo que tudo isso está longe de se realizar. Perco a fé imediatamente, como se não fosse capaz de conquistar nada do que almejo. Tudo é tão difícil, demorado e, dentro da minha realidade, muito solitário.


Já pensei em largar o curso de japonês, em fazer pós-graduação, aula de jazz e de teclado; em começar a academia e fazer caminhada; em guardar dinheiro para o intercâmbio no Japão e, recentemente, pensei em mudar o foco para a Austrália (…); em morar sozinha ou dividir com alguém (algo que nunca saiu da teoria). Ah, quantos planos e pouca força de vontade para realizá-los. Em mim, há muitos sonhos, mas pouca coragem para buscá-los. Uso o poder da fala e da escrita para expressar minha insatisfação, que não é de hoje, e aproveito esse espaço para reclamar do fundo do meu coração essa dor que me persegue. Grito para o mundo que não me sinto bem, mas nada nem ninguém mudará alguma coisa. O problema está aqui, lá no cantinho do meu coração, e se eu não agir logo, essa inércia será parte definitiva de mim.

Socorro! Não quero isso! Mas também não sei por onde começar, o que fazer e quais caminhos seguir. Talvez eu precise de orientação psicológica ou umas biritas loucas pra desestressar (sou tão chata e careta que nem bebida alcoólica gosto). Vai ver tô precisando de umas companhias mais hard. A maioria dos meus amigos, os pouquíssimos que tenho, andam muito na linha, se é que me entendem.

A vida tá passando e estou apenas passando por ela. Que sensação horrível essa, de ser mais uma nesse planeta. Que diferença faz se eu desapareço hoje ou amanhã? Claro, minha família (mãe), meu namorado (coitado, tem uma paciência incompreensível para me suportar…) e alguns amigos sentirão algo, mas, mesmo assim, não me sinto parte de nada. Muito pelo contrário. Sinto que não me adapto a nada, que nada me faz bem ou feliz. Essa gente efusiva, barulhenta, cínica e duas caras. Tudo por aqui me deixa com ainda mais vontade de querer sair daqui. Aprendi a odiar São Paulo e tudo o que essa cidade atraí pra si. Em cada esquina, só enxergo sujeira, odor do Rio Pinheiros e Tietê e gente, gente demais, em grande parte sem personalidade ou opinião. Fugir daqui seria uma opção? Não sei. Creio que o problema maior esteja em mim. A cidade só ajuda a intensificá-lo.

É… quem disse que a vida é fácil? Muitos acreditam em sua simplicidade. De fato, ela é bem simples quando estamos viajando com amigos, na praia ou nas montanhas. Quando caímos em si, percebemos que a tranquilidade ficou pra trás, que tudo aquilo fora momentâneo, como tudo na vida, inclusive a própria felicidade, que é feita de pequenos momentos que levamos durante a vida toda.


Ovelha Negra

Se você também é a ovelha negra da família, provavelmente entenderá que suas palavras são mudas e não fazem efeito algum contra os argumentos daqueles que te julgam. Por mais que se esforce, seu maior pecado é ser você mesmo. As brigas, os gritos e as ofensas nada mais são do que seu eu querendo sair.

Não há cicatrizes, mas não podemos dizer o mesmo para a dor, o prenúncio do choro. Toda vez que o dedo indicador risca sua face, sem toque, apenas com o vento das acusações cheias de veneno sem cura.

A ovelha negra da família quer novo abrigo, claro, não será (e nunca foi) fácil de encontrar. O negrume das nuvens cobrem os planos. O Capitalismo insiste em ser o maior culpado e desvio dessa fuga sem destino.

Não há palavra que amoleça essa barreira impenetrável, que jorra sangue ininterruptamente pelo corpo. Assumimos a posição de ovelhas, pravo de alma, corrompidas pela estridente razão de ser. É mais fácil se juntar a maioria quando a minoria é surda, cega e louca.

Venham, ovelhas, juntem-se a mim. Formaremos um rebanho de olhos tristes, perdidos na escuridão que consome o que somos e deixamos de ser; há anos, sem dizer o porquê.


“Pretty pretty please
If you ever ever feel
Like you’re nothing
You’re fucking perfect to me”


Tempestade em copo d’água

Tá, eu sei que faço tempestade em copo d’água, mas também sei valorizar os bons momentos. Uma noitada na Augusta, barzinho à noite, passeios na Av. Paulista com o namorado, filminho à tarde, manhãs sonolentas aos domingos… Vendo assim, até parece que a vida é feita apenas desses momentos. É e não é. Cansa poetizar sentimentos negativos, dias ruins e tristezas reprimidas. Muito mais gostoso lembrar daquele sorriso espontâneo, um abraço sincero e demorado e do beijo inesquecível de quem você ama. Reafirmo que faço tempestade em copo d’água, mas se não fosse essa mania de intensificar tudo, não aproveitaria tão profundamente os sons que escuto, o carinho que recebo e a vida que vivo.


“Pray to your God, open your heart

Whatever you do don’t be afraid of the dark.”


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